Friday, May 05, 2006

O ensino e a suas doenças

Seguindo conselho que me deram volto ao tema da educação. A educação superior é realmente suposto ensinar mais que um conjunto de técnicas e procedimentos específicos de uma dada profissão. Uma das suas maiores vantagens seria, teoricamente, proporcionar uma maior independência e agilidade mental - em resumo: ampliar horizontes e pensamentos.

Há cursos e áreas que se adaptam mais a isto que outros. Os que são eminentemente técnicos (engenharias, saúde e afins) regra geral são aqueles em que se torna mais complicado inserir um conteúdo extra técnico, algo que provavelmente se assemelharia a uma componente de ciências humanas. O que é preocupante é que nem nas áreas das ciências humanas parece existir pensamento por parte do corpo académico e principalmente por parte dos estudantes. O que vemos é estudantes que, para além de não terem (na sua maioria) nenhuma paixão pelas áreas que estudam, não fazem rigorosamente mais nada do que aquilo que for exigido para o exame.

Sem querer ser “médico” e diagnosticar os males do paciente gostava de deixar algumas notas sobre o que leva a isto:

1) O conteúdo de ciências humanas no ensino não universitário é medíocre, regra geral limita-se a uma perspectiva histórica das disciplinas sem incidir muito nas questões básicas.

2) O debate não é incentivado, é um dos problemas de um ensino derivado da era industrial, parte do principio da passividade do aluno (o ouvir, calar e repetir tudo no exame).

3) A falta de um sistema que detecte e direccione o talento numa fase inicial. O que leva a maioria dos alunos a andar no ensino porque não têm nada melhor para fazer da vida. Não sabem o que querem ou o que não querem, andam de situação em situação até a coisa se ajeita (incluindo a escolha de curso e área profissional).

4) A própria falta de ética por parte dos professores universitários que muitas vezes confundem as aulas das suas matérias específicas com aulas de ideologia (ainda me lembro de ter a infeliz ideia de um dia ir à Católica ver um discurso do César das Neves... doutrinação do princípio ao fim – e o mais triste é que ele até podia ter justificado algumas das suas posições de forma sólida, mas para isso era preciso ter o desejo de ser intelectualmente honesto e racional em vez de dar discursos retóricos a uma manada que aplaude tudo o que se disser).

5) A percepção de que ser licenciado é sinal de qualidade intelectual. Não é! Um bom intelectual não precisa de um diploma académico (pode ser autodidacta), precisa é de ser rigoroso e de saber pensar por si próprio. Este síndroma de superioridade leva a uma falsa confiança que se esvaí na primeira conversa séria que estes licenciados tiverem com alguém que perceba do tema.

Bem isto podia continuar por muito muito tempo mas sinceramente falta-me a paciência para ser exaustivo. Apenas fico contente por ter tido dois grandes professores de liceu (de filosofia e literatura) que me ensinaram a ver o mundo por muitas perspectivas e que me ajudaram a dar os primeiros passos no pensamento autónomo.


Questões extra para quem quiser partir a cabeça e perder o juízo:
- Porque que é que pensamos que um sistema de educação completamente derivado de sistemas de produção em massa da era industrial produziria bons profissionais e acima de tudo bons pensadores?

- Porque que é que pomos a nossa educação superior nas mãos de políticos reformados que se tornam professores de universidade e de "yes men" que aceitam tudo o que for posto à sua frente (o que significa que nunca serão uma ameaça para ninguém)?

- Se o estudante nunca na vida académica esteve motivado para nada porque haveria de se tornar num excelente profissional?

- Como se pode esperar que os jovens sejam extraordinários se aqueles que mostram potencial são “sufocados” pelos cretinos que estão à frente das instituições? (isto acontece por vezes porque os jovens significam mudança ou uma alteração do status quo mas principalmente porque regra geral são melhores profissionais que ameaçam expor a incompetência de lambe botas e políticos de terceira categoria que se engraçam perante os poderes)

- Como é que o ensino pode mudar radicalmente para lidar com o mundo e com as alterações em cada área específica se à frente dos departamentos universitários se encontram, muitas vezes, dinossauros inflexíveis que definem tudo em questões de ego e de penacho e para quem um bom professor tem que ter pelos menos 40 e tal anos no mínimo? O que aconteceu ao amor ao conhecimento que é suposto definir o ensino?

6 Comments:

Blogger pedro silva said...

a parte final do ponto 2 na concordo.

No ponto 4 também nao concordo. podendo tu aderires a um concerto de black metal, ou a encetares uma conversa com um adeptode uma claque de futebol inglês já enfrascado em 5 litros de cerveja foste até à católica ouvir JCN?
QUE PUNIÇÃO DESUMANA...

Saturday, May 06, 2006 12:06:00 AM  
Blogger Berith said...

Pedro,

Porquê a discordância no Ponto 2?

Sim eu sei, quem vai voluntariamente ouvir das Neves merece tudo e mais alguma coisa... Silly me...

Saturday, May 06, 2006 12:30:00 AM  
Blogger pedro silva said...

não é o ponto 2.
é especificamente
isto:

"""...parte do principio da passividade do aluno (o ouvir, calar e repetir tudo no exame)."""

penso que(mas posso estar enganado)isto se passou a nivel universitário ai desde 1987/8 até 92/93/94.

A partir dai esta "visão" venceu totalmente e passou a ser o objectivo de quem dá aulas fazer exactamente isto: criar ,se necessário à força a passividade no aluno.
Ou seja a natureza de tudo alterou-se a partir de meados da decáda de 90.
A passou a ser o padrão totalmente dominante(uma especie de fim da história que venceu no ensino)definindo que "passivo é bom".
Penso que a coisa agora já está para lá de ser um ensino derivado da era insdustrial, mas sim já evoluiu (chamar evolução a isto ...enfim) para um corpo novo -um novo bicho cujo germe será muito dificil de estirpar.

Agora estou convencido que o "sistema" já "respira" alunos passivos e não gosta sequer que não existam alunos passivos. Em vez de oxigénio, quer antes alunos passivos.
Parece aquela piada acerca do alcool: o meu sistema alcólico tem muito sangue.
Aqui passa-se a mesma coisa: o meu sistema passivo tem muita autonomia.
Vamos estirpá-la po mais depressa possível.

Dito de outra forma: concordo que foi um problema derivado do sistema massificado da era industrial, mas penso que "essa ruptura epistemológica (que ganda frase - é uma ruptura e ainda por cima epistemológica , não transgénica, por exemplo...)
já foi feita apesar de tudo e isto agora evolui para lado nenhum ,ou evolui apenas para a autocracia estúpida em todo o seu esplendor de lixeira.

E, hiper pessimissta realista não acredito que neste país de carneiros mansos algo mude ,pela simples razão que minorias desproporcionalmente poderosas na sociedade conseguem aguentar isto "ad infinitum" (uma expressão em latim fica sempre bem ... num comentário duma caixa de comentários...).

Ou seja estamos alegremente a produzir merda ,mas é para isso que o país no sistema internacional de merda para o qual o papel de portugal é esse e foi esse destinado, está de facto a a apontar.
Vamos ser criados dos outros no turismo, nos campos de golfe,nas pessoas formadas em geriatria para tomarmos conta das incontinencias mictórias dos velhinhos do norte da europa, dos "eventos"(esta então li-a no bicho carpinteiro pelo sr medeiros ferreira a lançar a ideia em plena campanha eleitoral de soares),enfim um país que depois ,só interessa que tenha um sistema universitário para que se pareça ser um país, mas que, dali nada sai, um bom sistema de saúde porque é necessário te-lo para salvaguardar a saude dos estrangeiros que virão cá e vivem cá - para o portugues teremos a merda actual, um exercito de opereta a fazer de carne para canhão quando é preciso,umas forças policiais apenas presentes, uma justiça que só será rápida para quem tem dinheiro,etc.
Foi-nos destinado o papel de mediocres e a "elite" portuguesa acha bem que se desempenhe alegremente esse papel.
Ou seja:um país que apenas necessita de 6 a 8 milhõe de portugueses:o resto serão brasileiros e eslavos para dar diversidade e cor e parecermos que somos todos muito tolerantes com estrangeiros etc...abertos ao mundo e merdas do estilo..

É por isso que eu penso(posso estar absolutamente errado,mas a situação não aponta para aí.,mas enfim...)que este estado de coisas é agradável para algumas pessoas. estão a ganhar muito dinheiro e poder com isto.
Exemplo lateral:são as pessoas,por exemplo, que não gostam de blogs...

Saturday, May 06, 2006 10:47:00 AM  
Blogger Berith said...

Com tanta expressão de alto calibre eu tive que ir buscar o dicionário :)

Mais uma vez concordo mas acho que está menos relacionado com um conjunto coerente de ideias (aka: plano) e mais com muitos pontos individuais de mediocridade sem grande pensamento conjunto. Agora quanto aos que podem mudar as coisas e não o fazem sistematicamente... aí já é mais plausível um certo nível de premeditação (e mesmo assim não esquecer que o político actual é um animal que sofre de miopia).

Saturday, May 06, 2006 12:03:00 PM  
Blogger pedro silva said...

põe alto calibre nisso...high voltage...alta telemetria ...tudo alto.

""" mas acho que está menos relacionado com um conjunto coerente de ideias (aka: plano)"""

Por enquanto. A tendencia será ir para aí.

"...mais com muitos pontos individuais de mediocridade sem grande pensamento conjunto""

concordo. Mas atéaqui pensoque as coisas estãoa mudar e os pontos individuais de mediocridade estão a ser acarinhados como sendo
indispensáveis a sermos mediocres...

"""Agora quanto aos que podem mudar as coisas e não o fazem sistematicamente... aí já é mais plausível um certo nível de premeditação (e mesmo assim não esquecer que o político actual é um animal que sofre de miopia). """

aqui já começo a distinguir a mioipia do politico actual - um imbecil social do resto.temo que existam mais "os que podem mudar as coisas" mas não querem do que politicos imbecis.
ou seja:o estrago dos politicos imbecis começa a ser menor do que o estragodos que podem mudar as coisas e não o querem fazer.
o que podem mudar e não o querem fazersão qualitativamenet superiroes nessa omisão e nosestagos que daí derivam do que os politicos imbecis.
Penso eu.
Não gosto desta ideia(quase que leva a uma pessoa começara ser considerada um maluquinho das conpsirações um "agent mulder,mas ...), mas começa-me a ser plausivel.
Dado o estado actual das coisas.

O ultimo governo durão e o actual socrátes levam-me a pensar isso....

Saturday, May 06, 2006 12:27:00 PM  
Anonymous Anonymous said...

That's a great story. Waiting for more. »

Saturday, March 17, 2007 6:53:00 AM  

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